quarta-feira, 28 de abril de 2010



FRESCOBOL, PURA ADRENALINA

Na opinião de alguns é pura contrariedade, isso porque é preciso andar com cuidado e de olhos bem arregalados pra não receber um certeiro bem no meio da testa; óbvio que o medo faz com que aja aquele certo exagero quando vai se criticar. Já para outros é motivo de curiosidade e fascinação; param e ficam contemplando aquela apresentação de amor e ódio.

Do que se está falando? Frescobol, prazer!

Aqueles que frequentam a praia mais famosa de João Pessoa, Tambaú - com justiça deixemos o título de mais bonita para sua vizinha, praia do Cabo Branco -, já estão devidamente acostumados, talvez policiados caia melhor, em ver um grupo de praticantes de frescobol esbanjando o famoso adjetivo misto de técnica e raça. São homens e mulheres, pessoas comuns do cotidiano, que nos fins de semana, com uma raquete na mão e muita vontade na alma, se transformam em autênticos esportistas e dão uma singular imagem naquele recantinho da praia de Tambaú; uma verdadeira colméia em ação fervescente. Um pouco acolá, mais precisamente no Bessa, no ponto famosamente conhecido como Golfinho, outro grupo, em número reduzido e esparso, também dá suas raquetadas com autoridade. Lá a praia pode não ser das mais belas, mas é compensada pelo trânsito das mais lindas mulheres de João Pessoa; só avião, nada de teco-teco.

Para quem nada conhece desse esporte, pode parecer complicado entender o que está acontecendo, quem está na vantagem, quem está ganhando ou perdendo. O frescobol, por ser um esporte sadio e também acessível a todos, já que seu custo com uma boa raquete e bola, itens necessários para sua prática, não tem um valor tão elevado, é também um esporte simples. Sua principal característica é que não há adversários jogando, e sim parceiros. Não é uma partida, é uma apresentação, sintetizando. Claro que aquela famosa frase: “toda regra tem sua exceção” não poderia deixar de faltar no mundo do frescobol, pois há aqueles, em minoria, diga-se de passagem, que jogam como se estivessem enfrentando um adversário a sua frente, e aí tome bola de todo jeito, em todas as direções, é aquele salve-se quem puder; no fundo são pessoas que não beberam da essência deste esporte tão fascinante.

Para se jogar um bom frescobol é necessário primeiramente uma boa técnica, só conseguida com uma longa prática. A concentração também é fundamental e só para título de comparação, podemos citar o tênis, onde tenistas exigem silêncio da platéia para não perderem o foco na partida, imaginem então no frescobol, onde a bola corre numa velocidade de fazer o próprio satanás se esconder sob a primeira batina que encontrar; e diferente dos tenistas, os jogadores de frescobol estão bem próximos, numa curta distância, então a bola é devolvida ao parceiromais rápido do que ligeiramente! Na verdade nossa atenção tem que ser mais do que redobrada quando comparada aos nossos ancestrais do tênis, pois além do jogo, temos que estar atentos aos banhistas que insistem em passar colado, cuidado com outras duplas próximas pra não haver choque, cuidado também com as crianças; difícil mesmo, e aí é uma prova dos diabos, é manter a concentração quando passa na praia aquela diva de linhas perfeitas, do tipo capaz de até parar avião no ar, nesse caso não tem jeito, é deixar a bola cair intencionalmente e contemplar as belezas que Deus põe nesse mundo. A concentração e a técnica por si só já fazem a apresentação ser interessante, contudo, alguns ingredientes podem tornar o show mais picante como, por exemplo, saltos e vôos rasantes, providencialmente executados, que podem operar o mesmo milagre que Jesus operou em Lázaro, isto é, bolas que aparentemente estavam perdidas, entregues à caixa bozó, são ressuscitadas e postas em jogo, em meio à incredulidade dos expectadores que não conseguem acreditar como aquele murrinha foi capaz de salvar a bola; sensacionais defesas a queima-roupa que fariam qualquer cabra macho sentir calafrios também entram no cardápio picante das apresentações. Mas como nem tudo é perfeito neste mundo de Deus, algumas vezes, não se sabe porque cargas d’água, a bolinha sai de sua função nada invejável de saco de pancadas para se tornar uma verdadeira caçadora voraz de desafortunados e desatentos banhistas; e aí meu amigo, se uma série de desculpas não resolver, tome cara feia, tome reclamação, e nessas horas nem as nossas santas mães, que estão em seus ofícios domésticos, são esquecidas nos elogios; coisas do frescobol!

A origem do frescobol se deu no longínquo ano de 1945, na badalada praia de Copacabana, estado do Rio de Janeiro, terra do samba e do malandro, e também agora terra do traficante; hoje uma autoridade temida e reverenciada nas incontáveis favelas cariocas; que desgraceira, santo Deus! É, portanto, um esporte 100% tupiniquim, 100% made in Brazil. Não demorou e logo se espalhou por outras praias, estendendo-se de uma ponta a outra do nosso vasto litoral brasileiro. E numa diversidade como é o sotaque de nossa língua, cultura e outras coisas mais, bem comum para um país continental como o nosso, o frescobol também acaba apresentando características diferentes em algumas partes. O frescobol praticado nas praias do sul, por exemplo, segue o esquema do “bate que eu ajeito”, onde um solta o braço, enquanto o outro torna-se uma parede, só devolvendo a bolinha com açúcar. Cada qual assume uma função diferente em certos momentos da apresentação; enquanto um, passivamente, segura as pontas, só amortecendo a bolinha, o outro, ativamente, vai atacando, mandando ver na redondinha até que as posições são invertidas. Agora quem ataca passa a defender, e quem defendia passa a atacar. Sem querer criticar, mas já criticando, a apresentação, nesta dinâmica, torna-se um tanto previsível. Seria mais ou menos uma apresentação planejada, precisamente arquitetada, sem chances para imprevistos, tudo devidamente calculado; nesse caso, a emoção do público, como se fosse uma roupa, já estaria milimetricamente costurada, não ficaria nem frouxa, nem apertada. Já por estas bandas do Nordeste, que tem como uma de suas características naturais aquele sol causticante, que é capaz de fazer urubu voar só com uma asa e usar a outra pra se abanar, o frescobol toma uma outra tonalidade, essa mais forte, mais viva. O nordestino parece querer insistir em guardar no sangue que corre em suas veias aquela fibra guerreira que tanto fez a diferença em época colonial, quando fez correr muito holandês, francês e português e que foi muito bem sintetizado por Euclides da Cunha, em sua obra prima Os Sertões quando sabiamente escreveu: “lapidado no meio hostil que o cerca desde seu nascimento, o sertanejo é antes de tudo um forte!” Claro que ao invés de sertanejo, vamos generalizar para nordestino, porque no afinal das contas somos filhos de uma mesma região sofrível e por tantos séculos esquecida por aqueles que estão à frente no comando do país. O tipo citado acima, fácil se percebe na orla nordestina quando o assunto é frescobol. Cada jogador, por aqui, joga com tenacidade, não afrouxa nunca, vai impondo um jogo de velocidade, impondo desafios ao seu parceiro, que igualmente responde a altura. A primeira vista tem-se a impressão de uma briga de titãs, onde não há espaço para fracos, mas na verdade ali estão dois parceiros, cientes daquela união no jogo e de que o sucesso de um está intimamente ligado ao sucesso do outro. Por isso cada um procura explorar ao máximo tudo aquilo que o outro pode render. Em oposição aos irmãos sulistas do “bate que eu ajeito”, aqui o buraco é mais embaixo, é na base do “toma lá, dá cá”, com a agressividade sendo respondida na mesma moeda. Devido a esse estilo mais aguerrido, obviamente que as chances de menor seqüência no toque de bola é maior quando comparado ao jogo batida/defesa; é um risco que por aqui tomamos, mas que nunca nos arrependemos, porque sentimos que nesse estilo estamos colocando a adrenalina ao nível mais alto, e jogar com a adrenalina lá nas alturas é muito gostoso. Outra característica bem marcante do jogo sulista para o nordestino é a capacidade deles em defender brilhantemente bolas na frente do corpo e no backhand, incontestavelmente uma escola. A explicação pra essa diferenciação cai novamente no estilobatida/defesa, pois aquele que no momento está na condição de defensor não tem outra preocupação que não seja apenas a de devolver a bola, portanto, toma sua posição defensiva, deixa sua raquete já posicionada em meio ao tronco e aí só esperar, já sabe o que tem que fazer. Obviamente que por estas paragens, nossos atletas também defendem as bolas difíceis com a mesma eficiência, mas com um certo grau de dificuldade, justamente pelo estilo imposto de ataque mútuo. Com cada um procurando bater sempre forte, já se posicionando para a próxima batida ofensiva, não é difícil que em muitos momentos ele seja pego de calças curtas e acabe recebendo uma bola em cima do corpo ou no seu revês, e por isso vem a dificuldade, porque se toma uma atitude sempre de ataque; e não custa dizer que essas bolinhas vem tinindo de veneno por conta do jogo veloz.

Infelizmente ainda não foi unificado um estilo único para os eventos oficiais de frescobol, o que não é raro gerar muito descontentamento. Em cada campeonato há uma regra diferente, como se não bastasse a maldita apuração subjetiva que faz com que muitas vezes a lógica vá para as cucuias. Urge que uma regra única e satisfatória seja criada, mas que para isso seja necessário diálogo, entendimento entre todos aqueles que fazem um frescobol sério, que resulte em consenso. Nada feito à revelia e enfiado goela adentro, porque isso, indiscutivelmente, resultaria em favorecimento de um lado em detrimento do outro.




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