Lembro das inúmeras vezes que a Felicidade batia a minha porta insistentemente, e eu, deitado na minha rede indolente, fazia pouco caso dela. Mas não se dando por vencida, ela corria pelos becos, batia nas janelas, olhava pelas frestas tentando me encontrar, pedia para entrar e ficar ao meu lado. E eu continuava deitado, confiante no meu taco, achando-se senhor absoluto, apenas dizia: “Não preciso de você no momento.” E assim foi. Ela tentava entrar no meu lar e eu a desprezava; e isso se repetiu por um bom tempo. Então, ela vencida pela minha suposta superioridade, gritou do jardim: “Tudo bem, não vou importuná-lo mais, quando quiser me encontrar basta me procurar; mas cuidado, não demore, pois do contrário, posso estar muito distante que você não possa me buscar.” E lá se foi a felicidade, seguiu até o fim da rua e desapareceu na primeira esquina. Não estava inconformada, apenas desapontada, sem compreender aquela minha atitude. A porta para a Felicidade estava sempre fechada no meu lar; mas para a Aventura não. Esta enérgica e jovem atraente adentrava sem cerimônias e era muito bem recebida. Formávamos um belo par, harmonioso e atrevido. Mas sua presença era tão rápida que logo me deixava sozinho. E naqueles momentos, quando eu começava cogitar a possibilidade de permitir a felicidade entrar, parece que a Aventura adivinhava meu pensamento e corria para minha casa, tirando de minha cabeça aquela ideia de ter a felicidade ao meu lado. A verdade é que o tempo correu e fui me acostumando com essas vindas e idas da jovem Aventura, que além de uma sedutora mulher, também tinha o poder de fechar meus olhos para tudo o que estava ao meu redor, e assim eu não percebia que as coisas estavam acontecendo, enquanto eu permanecia inerte, parado no tempo. Os espaços entre uma visita e outra eram maiores, ao tempo que sua permanência também diminuía repentinamente. Quando tentava me aquecer com o calor de sua presença ela sempre se despedia. Então, como saindo de um encanto, um belo dia abri os olhos e tomei uma decisão acertada mas também tardia; não mais permiti a entrada da Aventura em minha casa. Estava me sentindo cansado daquelas visitas. Sem perceber, ela tirara quase todas as minhas energias, e o calor que eu tanto procurei nela não existia, existiram sim, apenas frenesis, nada mais do que isso. Mas agora seria diferente, eu optara pela felicidade, agora era a hora de dar uma chance para ela. Quando fui me preparar para procurá-la quão susto não tive ao me olhar no espelho; estava velho, já não era o jovem que pensava ser, o tempo havia passado a um palmo dos meus olhos sem que eu percebesse. Agora compreendia que estar ao lado da aventura havia me custado a juventude. Restou correr atrás do tempo perdido, correr em busca da felicidade, mas já se passara tanto tempo desde que ela partira e minhas pernas, cansadas e velhas, eu temia não conseguir encontrá-la a tempo. Mas apesar de tudo, ainda assim tentei. Andei pelas ruas da vida, perguntei a todos que via: “Por acaso você viu minha felicidade por aí?” Mas ninguém sabia do seu paradeiro. Depois de constantes buscas infrutíferas, voltei triste para meu lar. Quando abri a porta, percebi um movimento estranho, e me veio logo ao pensamento que pudesse ser a própria Felicidade que estivesse ali, de volta, pronta para dar aquela que seria a última chance para um homem que se deixou levar pelo encanto efêmero de uma sedutora Aventura, mas aquela alegre sensação logo se desvaneceu quando vi uma mulher velha, sombria, de vestido escuro, que me observava; seu olhar era vazio, sua expressão era sem vida. Sem cerimônia perguntou: “Disseram que você estava por aí, procurando sua Felicidade, é verdade?” Ao que respondi sim. Ela cravou seu olhar sem brilho aos meus, e sentenciou: “Desista; agora qualquer esforço nesse sentindo é inútil. A felicidade que você procura há tempos encontrou um lar que a recebeu com carinho e por isso ela já não te pertence". Abatido com aquela revelação tão mortal quanto uma punhalada no peito, me deixei cair tristemente na poltrona e perguntei: “Se a felicidade agora não passa de um pássaro que vejo voar distante no horizonte, ao menos pode me dizer onde posso reencontrar a Aventura que há tanto tempo nem bate mais a minha porta”. Depois de breve sorriso irônico, ela me respondeu: “Tão impossível quanto a Felicidade é a Aventura nesse momento, pois esta não mais existe. Seu tempo de existência é sempre prematuro, nunca vinga na vida; há muito ela é falecida”. Agora nem Felicidade e tão pouco Aventura; estava sozinho em minha jornada. Agradeci as revelações daquela velha mulher, e como me sentisse bastante incomodado com sua presença, pedi que se retirasse, pois eu precisava descansar, porém, mais uma vez ela cravou seu olhar sem vida em meus olhos e disse secamente: “Não pode me mandar embora, agora sou sua companheira. Trate de se acostumar com minha presença; como agora, você vai se sentir incomodado ainda por muito tempo, mas aos poucos você vai me aceitar, acredite". Incrédulo com mais aquela triste revelação, perguntei seu nome. “Meu nome? Oh...desculpe por não ter me apresentado antes; me chamo Solidão e estou aqui para deixar seus dias mais longos, suas noites mais frias, e seus sonhos despovoados. Agora se me dá licença, irei a cozinha preparar um chá frio. Aceita uma xícara?”
Pendi a cabeça no sofá, olhar perdido no teto, e respondi secamente: “Sim...aceito”.

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