Só na escuridão saio do meu abrigo e encaro o agora mundo opaco.
Minha beleza não é por completa, mas é assim que a segurança me abraça.
Sou mais um filho da noite buscando transformar a beleza no fundo negro de uma cortina.
Minha desenvoltura é tímida, minha natureza espontânea é matemática.
Apesar dos morcegos darem a certeza da noite, sou cauteloso, temo o grande inimigo; a luz.
Sou um filho da lua que busca seu alimento no frio escuro de uma rua deserta.
Que busca um pouco de calor sob um solitário poste de luz.
Sou um filho da noite que acompanha a marcha silenciosa de um grupo de corações gelados.
A madrugada longa e triste me espera, abocanha e tritura meus sonhos.
Sou um filho da lua que tem na grande escuridão a sua sombra.
Numa esquina qualquer, sombria, fico imóvel, sem esperar qualquer coisa ou alguém.
No horizonte reina ainda a escuridão e aqui, quase deserto, é possível ver com dificuldade pessoas, correndo ali, cruzando outra esquina, todas silenciosas, todas culpadas.
São almas atormentadas a se cruzarem, mas sem se perceberem, cada qual absorta com suas próprias mágoas.
Sou filho da lua, sou filho da noite. Fito novamente o horizonte e um leve tom alaranjado desponta; é a luz, é o astro maior preparando sua chegada sempre triunfal, alardeado pelo canto vigoroso de um galo.
Sou filho da lua, sou filho da noite. É chegada minha hora de correr feito bicho, em busca de abrigo seguro, onde a luz não consiga me envolver, onde ela não consiga me mostra para o mundo.
As criaturas da noite agora dão lugar aos primeiros pássaros neste último suspiro de madrugada. O silêncio cai por terra, ferido mortalmente. É o dia que vem nascendo.
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