segunda-feira, 4 de abril de 2011

CRÔNICA DE UMA BOLADA NA CABEÇA!
Era domingo e naquela manhã o sol mais do que nunca era majestoso, cenário perfeito pra "pegar aquela praia". O resultado não foi outro, o pessoense rumou em direção ao atlântico para curtir aquele programa bom e barato. Não demorou e o trânsito de banhistas era intenso, ainda mais porque era dia de maré alta e a passagem na beira da praia era estreitíssima. Era um vai e vem interminável, mesclado de pessoas as mais variadas: feias, bonitas, magras, gordas, jovens, velhas...etc. Como não poderia deixar de ser, lá também estávamos, jogadores de frescobol, securas inveteradas, fixando nosso espaço. Aliás, espaço já consagrado pelo longo tempo do frescobol praticado ali, numa pequena faixa localizada entre o Hotel Tambaú e o Busto de Tamandaré. Feito o alongamento de praxe, lá vou eu jogar com Rafael, parceiro e treinador. Começamos a jogar e, minutos depois, se junta a nós Jailma para formar uma trinca. Se jogar em dupla num espaço reduzido é temeroso, o que dizer então uma trinca! Mesmo assim continuamos tentando jogar. Eu não estava muito a vontade porque tinha mais preocupação com as pessoas do que propriamente com o jogo; mas ainda assim continuávamos tentando jogar. Quando o jogo começou a encaixar e as batidas se tornaram mais consistentes, eis que acontece aquilo que mais temíamos, ou quem sabe aquilo que estava previsto para acontecer mais cedo ou mais tarde. Jailma, uma das mais agressivas jogadoras da praia, dispara um torpedo daqueles, a bolinha vai tinindo veloz ao encontro da raquete de Rafael, porém, quis o destino, que naquele momento se mostrou travesso, que Rafael não conseguisse devolver legal pra mim, então, tal como se fora um foguete, a bolinha ganha o céu; parecia querer tocar nas nuvens, mas como tudo que sobe uma hora desce, ela, marotamente, em meio a tantas pessoas, resolveu aterrissar carinhosamente na cabeça de um homem que era, digamos assim, nada compreensivo. Tentem imaginar um ovo podre jogado na cabeça ou quem sabe aquele inesperado “tapa no pé do ouvido”! Pois bem, aquela ingênua bola, que despretensiosamente foi acertar na cabeça daquela desatenta alma, teve todo aquele efeito devastador. Eu, por estar mais próximo do agora tão “desmoralizado”, tão “arrasado” homem, pedi desculpas pelo acontecido. Nunca esquecerei aquele olhar! Os olhos pareciam ter faíscas, e digo com muita segurança que se deles pudessem sair disparos, naquele instante eu não passaria de um cadáver crivado de balas, teria sido executado ali mesmo, sem pena, sem chance alguma de defesa. Confesso que não compreendi as palavras iniciais ditas por ele, talvez por estar descontrolado não conseguisse pronunciar o som preciso das palavras, mas logo depois falou em alto e bom som, de tal forma que eu e toda a orla de Tambaú ouvimos perfeitamente quando ele esbravejou: “Você é um palhaço, ela também é uma palhaça e outro lá também...” Todos que passavam por perto naquele momento e mais aqueles que estavam deitados ou sentados se bronzeando, ficaram mudos, apenas observando, e no fundo talvez estivessem fazendo suas apostas em silêncio, do tipo: “Aposto que o magrão não vai levar o desaforo pra casa”...”Aposto que ele vai quebrar a raquete no quengo do cara”...”Aposto que o pau agora vai comer no centro.” Mas, para decepção do povão, amante de um barraco, fiquei em silêncio, aceitando pacificamente aquele cargo a que fui promovido, e diga-se de passagem não é nenhuma vergonha, porque palhaço diverte, palhaço é alegria; só não me peça pra colocar aquela bolinha no nariz; é ridículo!
Infelizmente, Jailma não teve o mesmo espírito de gelo; talvez, quem sabe, tenha pensando: “Já que esses homens frouxos não se manifestam, então deixa comigo, que neguinho vai ver que comigo o buraco é mais embaixo!” A partir daquele momento aquela mulher tão simpática, tão sorridente, se transformou. E que transformação! Como uma metralhadora ensandecida, nossa colega de frescobol começou a soltar o verbo. “As juras de amor” foram intensas. De nada adiantavam meus apelos pacifistas pedido calma, calma. A mulher era a própria encarnação de uma indígena tabajara, doida pra pegar homem branco pra assenta-lhe o cacete! O pobre do homem que no início estava se achando a própria bala que matou John Lennon, deve ter se arrependido de mexer na onça com vara tão curta. A verdade é que ele foi prudente o bastante para guardar distância naquela discussão acalorada, caso contrário, não sobraria dúvida que o coitado voltaria pra casa com a marca de uma belíssima bofetada de nossa amazona intrépida do frescobol. Graças a Deus toda aquela contenda ficou só no bate-boca. Lembro que minutos depois ele passou de volta, mas com uma atitude bem diferente, mais desconfiado do que um rato perto de ratoeira.
Pra quem joga frescobol é importante ter em mente que uma pessoa, quando atingida por uma bola, terá uma reação que pode ser de indiferença, pode ser de compreensão e, principalmente, também de incompreensão, como foi o caso. Pra este último caso é que se deve ter cuidado, não revidar, porque convenhamos, ninguém gosta de levar uma bolada; a agressão verbal é apenas uma reação de algo que ela não gostou, de algo que a fez se sentir importunada. É disso, fundamentalmente, todos que jogam frescobol devem ter em mente: qualquer pessoa tem o direito de reclamar, não importa se foi uma bola devagar ou forte; ela está no direito de reclamar.
Agora, depois de baixada a poeira, confesso que pra esse episódio, excepcionalmente, achei que aquele indivíduo fosse merecedor de um chega pra lá. De uma próxima vez, se ele passar e a bolinha bater, estando Jailma por perto, ele vai pegar a bolinha carinhosamente e vai dizer: “Desculpe por ter atrapalhado, da próxima vez terei mais cuidado de passar distante.”

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